Este Site tem como origem projeto jornalístico realizado e publicado, em 1999, no jornal Correio Braziliense (série “500 Anos”, caderno especial de 22 de abril). A reportagem, que também apareceu no Jornal O Dia (22 de abril de 1999) e nas revistas Isto É e Ícaro, centrava-se no fenômeno dos escravos brasileiros libertos e retornados à África ao longo do século XIX, especificamente no Benin, onde tomaram o nome de “Agudás”.

Com base nesse trabalho inicial, tive a ocasião, nos anos de 2000 e 2001, de dar sequência à pesquisa sobre o tema, dessa vez na Nigéria, epicentro histórico do fenômeno, onde ainda hoje vive o maior número de “retornados”, mas também no Togo e em Gana, país onde a pequena comunidade brasileira dos “Tabom” festejava seu novo chefe, coroado em 26 de fevereiro de 2000. Em 10 de dezembro de 2003, a revista Veja publicou parte do resultado dessa investigação de três anos.

Famílias "brasileiras" reunidas para uma feijoada na Embaixada do Brasil, em Lagos, em companhia dos embaixadores Pinto da Silva

O fenômeno dos “retornados” já foi ampla e profundamente analisado por estudiosos brasileiros de diferentes disciplinas, especialmente, mas não exclusivamente, historiadores e antropólogos. Entre os mais conhecidos, não posso deixar de citar (e pagar tributo pelas preciosas informações) Capistrano de Abreu, Gilberto Freire, Nina Rodrigues, Pierre Verger, Mariano e Manuela Carneiro da Cunha, Antônio Olinto, Zora Seljam, Alberto da Costa e Silva e, mais recentemente, Milton Guran e Victor Leonardi.

O projeto Cartas d’África não pretende preencher lacunas de estudos já realizados, nem oferecer interpretações alternativas sobre um fato histórico já intensamente analisado. Surge, sim, do entendimento de que, apesar da dedicação dos que acima citei, o fenômeno dos “retornados” permanece amplamente desconhecido no Brasil. Concebido como iniciativa jornalística, o projeto foi, paulatinamente, tomando a forma de um memorial, que procura resgatar, através de fotografias, mensagens e, principalmente, do relato oral das famílias entrevistadas, a complexa (e frequentemente esquecida – às vezes perdida) genealogia desses quase brasileiros.

Carlos da Fonseca em companhia da família Suberu-Pereira, em Lagos

 

O eixo central do Cartas d’África consiste de três registros complementares: o primeiro, fotográfico, mostra quem são hoje os descendentes dos retornados; o segundo, histórico, traça sua genealogia e resgata sua memória; o último, "epistolar", concentra-se nas cartas dirigidas aos brasileiros em geral e a seus parentes (pessoas de mesmo sobrenome que residam no Brasil) em particular. O projeto busca, além disso, resgatar um pouco da influência desses brasileiros africanos, que preservam, em sua comunidade, tradições culinárias e festivas de um Brasil que a grande maioria nunca conheceu.

A noção de parentesco com a qual se trabalha no projeto é, claro está, mais simbólica do que real, embora existam casos concretos de famílias que hoje divivem seus ramos entre o Brasil e a África (famílias Rocha, Bangboshê Martins-Sauzer e Alakija, que vivem na Nigéria e na Bahia). A iniciativa de escrever e exibir as "cartas" nas fotografias, como alternativa ao envio ao Brasil, partiu dos próprios entrevistados, em 1999. Em pouco tempo tornou-se o objeto central do projeto.

O projeto foi idealizado e realizado por Carlos da Fonseca, jornalista e diplomata, atualmente vivendo nos Estados Unidos (2002). A concepção e produção do Site é de Carlos da Fonseca, Letícia Werneck e Javier Iñon.

Agradecimentos especiais vão para Carlos Alfredo e Maria Celina Pinto da Silva, Paulo Americo Veiga Wolowski, Geraldo Afonso Muzzi, Milton Guran, Victor Leonardi, Alberto da Costa e Silva, Ubiratan Castro de Araújo, Márcia Maria de Souza, Marcelo Cunha, Pedro Motta Pinto Coelho, Sylvia Ruschel de Leoni Ramos, Irene Vida Gala, Ana Beatriz Magno, Chief Lateef Dosunmu, Chief Paul Bangboshe Martins, Abraham G´bosa, Antonio da Costa, Severin Miguel, Louis G´nonlonfoun, assim como para todas as famílias que contribuiram, com seus depoimentos e suas mensagens, para a realização deste projeto.

© textos e fotos Carlos da Fonseca