Ao
longo do século XIX, e até inícios
do XX, milhares de brasileiros de origem africana, escravos
libertos ou forros (nascidos livres), migraram para a África,
em um movimento que se convencionou chamar de "retorno",
ainda que, para muitos desses "retornados", a
África nunca houvesse sido terra natal. Deixavam
o Brasil, em sua maioria, em busca das origens e de um futuro
melhor, ou simplesmente fugindo da perseguição
e da falta de oportunidades de um Brasil que engatinhava
no processo de emancipação de seus escravos,
etapa indispensável de um projeto de nação
no qual os negros ainda não tinham lugar.
O
projeto Cartas d'África procura resgatar a história
de alguns desses brasileiros e de seus descendentes.
Brasileiros
como Francisco
Félix de Souza,
o primeiro “Chachá”, título
que ganhou do rei de Abomé, Guezô, seu irmão
de sangue, aventureiro baiano que se estabeleceu na atual
cidade de Uidá, no Benin, em 1788 e, poucos anos
depois, tornou-se o homem mais rico do continente, lucrando
com o monopólio do tráfico negreiro.
Ou
Domingos
José Martins,
filho bastardo (e homônimo) do mártir da revolução
pernambucana de 1817, que foi a Uidá a convite do
Chachá e terminou por sucedê-lo à sua
morte, tornando-se milionário com o tráfico
negreiro e com o comércio do dendê.
Ou
ainda José
Abubakar Paraíso,
que foi a Porto-Novo, no Benin, como escravo de Domingo
José Martins, e ali se tornou seu barbeiro e confidente,
herdou parte de suas plantações e fez fortuna,
sendo considerado um dos fundadores da comunidade muçulmana
do país.
Brasileiros
como João
Esan da Rocha, negro liberto
que voltou a Lagos na década de 1870, acompanhado
do filho Cândido, que ajudou a fundar o “bairro
brasileiro” da cidade e nele fez fortuna, começando
pela venda de água, que tirava de um poço
artesiano cavado no pátio de sua casa, a “Casa
da Água”, sobre a qual escreveu Antônio
Olinto.
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| Porfírio
Maxwell Assunção, irmão de Plácido |
Ou
como Sir Adeyemo Alakija, que nascera Plácido
Assunção,
filho do liberto Marcolino Assunção, retornado
a Lagos em 1870. Adeyemo estudará na Inglaterra e
será um dos mais ativos líderes políticos
de seu país, fundando o primeiro partido nigeriano,
o Action Group, e contribuindo para o processo de emancipação
da Nigéria.
Brasileiros
como Azumah Nelson, lendário fundador da comunidade
brasileira de Gana, batizada “ Tabom”,
que se teria estabelecido em Acra na primeira metade do
século passado, à frente de sete famílias
brasileiras, semente da comunidade hoje imensa.
Brasileiros,
enfim, como Sylvanus
Olympio, primeiro presidente
da República do Togo.
Nascido em 1901, Sylvanus estudou na Europa, trabalhou para
companhias inglesas e ingressou na política durante
a segunda guerra mundial. Fundou o Partido da Unidade Togolesa
e conquistou a independência de seu país em
1961, um ano apenas depois do nascimento da primeira nação
africana livre, o Gana. Foi figura de proa do movimento
de emancipação da África, ao lado de
líderes como Kwame N’Krumah, Leopold Senghor,
Julius Nyerere, Patrice Lumumba e Sekou Touré. Olympio,
que já nasceu na África, era neto de um brasileiro,
Francisco Olympio da Silva, carioca que, em meados do século
XIX, se estabeleceu na chamada “Costa dos Escravos”,
atual Benin, em busca da fortuna. Foi assassinado em janeiro
de 1963, durante golpe militar que contou com a participação
daquele que, ainda hoje, é o ditador do Togo, Gnassingbé
Eyadéma.
Instalados
em cidades como Lagos (na atual Nigéria), Uidá,
Porto-Novo e Aguê (Benin), Lomé (Togo) ou Acra
(Gana), esses retornados constituíram uma verdadeira
comunidade, homogênea nos traços deixados pela
herança brasileira, em especial a educação,
rigorosa e majoritariamente católica, muito diferente
daquela dispensada pelas famílias locais a seus filhos
e netos.
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Família
Fragoso, em Lagos, no início do século
XX
|
A
partir da década de 1850, com a virtual extinção
do tráfico transatlântico, muitos retornados,
livres do medo de serem escravizados outra vez, migraram
para o interior, reencontrando suas regiões de origem.
Os que ficaram no litoral contribuíram para a prosperidade
dessa comunidade coesa e destacada, formada por pequenos
artesãos e grandes negociantes, que tiveram grande
influência na vida social e econômica da região.
No
final do século, muitos retornados acabaram sendo
cooptados pelas administrações coloniais francesa
e inglesa, que souberam aproveitar-lhes a educação
rigorosa e as influências ocidentais. Acumularam,
assim, parcela considerável de poder, mas perderam,
aos poucos, parte dos costumes e tradições
que faziam a sua identidade própria. Não foram
poucos os que, então, mudaram seus sobrenomes, adaptando-os
ao francês e inglês ou, em casos mais raros,
substituindo-os por patronímios de origem muçulmana.
Com
o movimento de descolonização, conduzido a
partir do final da Segunda Guerra Mundial, muitos perderam
o poder e o prestígio que tinham, associados, como
eram, à metrópole colonial. Apesar disso,
sua contribuição para a independência
de seus países, como no caso do Togo e da Nigéria,
foi considerável.
São,
ainda hoje, o cimento, cada dia mais frágil, é
verdade, a prender importantes regiões da África
ocidental ao Brasil. Têm, em sua memória afetiva,
a presença da cultura nacional, através da
culinária (a feijoada, preparada à moda africana,
é prato de festa; a “mouqueca” e o “moyo”
são parte do dia-a-dia), da arquitetura (bairros
inteiros em Lagos, Porto Novo e Uidá exibem os casarões
do Brasil de outrora), do folclore (a burrinha é
até hoje dançada no Benin, como parte das
celebrações de Nosso Senhor do Bonfim; em
Lagos, o chamado “bairro brasileiro” é
palco, duas vezes por ano, do desfile de carnaval –
uma no natal, a outra na páscoa) e mesmo da língua
(perdida em sua maior parte, mas ainda presente no vocabulário
doméstico, em palavras e expressões como “sua
benção Yayá” ou “palmatória”).
Essa
comunidade híbrida, brasileira e africana, branca
e negra, escrava e escravocrata, logrou com o tempo uma
notável coesão. São todos iguais, retornados,
“agudás” e brasileiros, filhos de uma
terra que deixaram ou que os deixou há décadas,
mas que continua presente em sua memória afetiva,
e que continuam a procurar em sonho, embora os sonhos, como
tudo, desapareçam com o tempo.