Relatório nº 065/2000
Quinta-feira, 26 de outubro de 2000
UM OLHAR SOBRE O MODELO CHILENO
Especial Estado de São Paulo
Apontado constantemente como uma referência para a América Latina, o Chile vive um período de estabilidade duradoura desde a década de 70. O peso chileno flutua sem grandes oscilações, e a abertura comercial – com exceção dos produtos agrícolas – é uma realidade: a tarifa média, que este ano está em 9%, chegará a 6% em 2003. Este, aliás, é um dos fatores que poderão dificultar a entrada do país no Mercosul, como é desejo do presidente Ricardo Lagos, porque os empresários chilenos pretendem que as alíquotas de importação caiam, enquanto as do Mercosul estão bem mais altas. E o Chile privatizou vários serviços, até mesmo os básicos, como saneamento, assegurando o ingresso de capital estrangeiro necessário à estabilidade. Este é o modelo que tem sido proposto para o Brasil, e que é alvo de atenção e elogios do ministro da Fazenda, Pedro Malan, e do presidente do Banco Central, Armínio Fraga. Devemos segui-lo? O Estado foi ao Chile e o retrata nesta série especial que publicaremos até quarta-feira. A discussão está na mesa.
VIAGEM PELOS CONTRASTES DO PAÍS REPRODUZ CENÁRIO SUL-AMERICANO
As grandes avenidas Americo Vespucio, Providencia e Bernardo O'Higgins - que dão acesso ao centro da capital chilena para o viajante que desembarca no moderno aeroporto internacional do Chile - são um retrato dos contrastes e da economia deste país de 756.626 quilômetros quadrados, um filete com extensão máxima de 172 km entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico. São casas simples, prédios mal conservados no estilo anos 50 e 60, edificações monumentais como o Palácio de La Moneda, e outros edifícios modernos, arrojados, apontando para o futuro, como a gigantesca torre da Entel.
Com um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 67,4 bilhões no ano passado, que deve chegar a US$ 71,5 bilhões este ano, de acordo com previsões do governo, o Chile tem no cobre sua principal fonte de riqueza. Um minério que responde por 45% do PIB, seguido de papel e celulose, vinicultura e frutas. A renda per capita, de US$ 4,4 mil por ano, ainda é um sonho para a maioria dos chilenos que vivem com o salário mínimo de $ 100 mil (pesos) mensais, ou o equivalente a US$ 185,00 pela cotação da última semana - o peso é flutuante em relação ao dólar. A concentração de renda no Chile segue o exemplo da concentração do PIB, onde apenas duas empresas, Codelco e Compañia Manufacturera de Papeles y Cartones, a CMPC, também chamada de Papelera, chegam a responder por quase a metade da força da economia chilena.
Para se ter uma idéia, as exportações no ano passado somaram US$ 15,6 bilhões, das quais o cobre respondeu por 37,7%. Por sua vez, as importações atingiram US$ 13,9 bilhões, deixando um resultado positivo de US$ 1,6 bilhão na balança comercial de um país que importa carros, petróleo, eletroeletrônicos, alimentos, roupas e calçados.
Já a taxa de desemprego aberto, aquela que mede o total de pessoas da População Economicamente Ativa (PEA) procurando emprego, atingiu 10,5% da força de trabalho chilena no último quadrimestre, com a previsão de encerrar o ano em 8,2%. O que explica a situação de visível decadência nos bairros periféricos de Santiago, à margem de algumas de suas principais avenidas. É como se antes de chegar à Zona Sul de uma cidade como o Rio de Janeiro, o turista tivesse que cortar regiões como Nova Iguaçu, com seus valões a céu aberto. Depois, como recompensa, o mesmo turista, se defrontaria, no Rio, com as praias, e em Santiago com o rio Mapocho e a Cordilheira dos Andes. Dois cartões postais naturais melhor vistos de regiões tradicionais ou emergentes, como Bellavista e Las Condes.
Esse mesmo país de contrastes e uma belíssima paisagem de cordilheiras sempre nevadas, apesar do forte sol de primavera, é apontado com referência para outros da América Latina. Explica-se: vive uma período de estabilidade duradoura desde a década de 70, com sua moeda flutuando, hoje, sem grandes oscilações.
A abertura comercial, exceto para produtos agrícolas, é uma realidade, onde a tarifa média este ano de 9% chegará a 6% em 2003. Vários serviços, incluindo os básicos como saneamento, foram privatizados, assegurando o ingresso de capitais estrangeiros necessários para essa estabilidade. É este modelo que tem sido defendido, nas últimas semanas, pelo ministro da Fazenda, Pedro Malan, e o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, para quem o regime tarifário de comércio exterior brasileiro deveria seguir o chileno.
A inflação nesse país que fica no extremo sul da América Latina também tem sido modesta ao longo dos últimos anos e atingiu 2,3% no ano passado, devendo chegar a 4,5% este ano, bem próxima dos 4,7% de 1998, mas ainda muito abaixo dos 6% de 1997 ou dos 8,9% de 1994. A previdência privada, com um sistema público em desmonte, tornou-se investidora importante em outros países, incluindo o Brasil. Hoje, a poupança interna chega a 21,5% do PIB.
Nesta primeira de uma série de reportagens sobre o Chile, serão abordadas as relações comerciais do país com o Brasil, a resistência de parte do empresariado local ao Mercosul e o que pensa o chileno. Também se conhecerá o sonho do ex-ministro da Fazenda Hernán Büchi (1985-89) - responsável pela implementação, no governo de Augusto Pinochet, do aclamado plano econômico chileno - em ver de novo o país como "o jaguar da América do Sul", crescendo a 7% ao ano. As mazelas da pobreza serão expostas, como mostraria, aliás, qualquer fotografia tirada hoje no centro da capital.
PROPOSTA: ELIMINAR O IMPOSTO DE RENDA
Eliminar o imposto de renda para estimular o crescimento. A proposta apresentada na quinta-feira, dia 12, pelo ex-ministro da Fazenda Hernán Büchi - se pronuncia "birri" - foi bem recebida por uma platéia de empresários chilenos que participaram de reunião da Associação de Exportadores de Manufaturados (Asexma), na capital chilena. Para Büchi, a eliminação gradual do imposto de renda, em seis anos, é uma forma sustentada de o Chile voltar a ser "o jaguar da América Latina", crescendo a uma média de 7% ao ano.
Büchi, de 51 anos, foi uma das estrelas do governo militar do general Augusto Pinochet. Ele comandou a economia do país de 1985 a 1989. E explicou à platéia que sua proposta de eliminação do imposto de renda visa também criar empregos, já que a taxa de desemprego aberto atingiu 10,5% no último quadrimestre, uma das mais altas da América Latina. Quem tem emprego consome mais e, portanto, paga o IVA, que é uma forma mais eficiente de o Estado arrecadar", ressaltou o ex-ministro, também conhecido como "princípe valente" devido aos cabelos escorridos.
Büchi também defendeu a continuidade das privatizações chilenas, que incluem, agora, empresas de saneamento de regiões do interior do país. Para o ex-ministro, é preciso atrair capitais estrangeiros e novos investimentos para que a moeda siga estável e o Chile volte à posição de jaguar. Orgulhoso naquela quinta-feira por ter sido apontado, em enquete do jornal La Tercera, como o melhor ministro da economia que o Chile teve nos últimos 50 anos, Büchi não economizava sorrisos ao apresentar suas idéias.
Candidato apoiado por Pinochet nas primeiras eleições chilenas depois do plebiscito de 1988, que pôs fim à ditadura, Büchi garantiu que os políticos prometem muito para os pobres e nada fazem, por isso "os chilenos estão cansados e precisam de um projeto de retorno ao crescimento". Quando, em 1985, abriu a economia do país propondo uma drástica redução das tarifas de importação, de até 100% para 15%, Büchi assustou muita gente, mas as exportações chilenas, com a abertura, cresceram, bem como as importações. Foi um período de prosperidade. O que não reduziu a pobreza, mas o isolamento político e comercial a que países defensores dos direitos humanos pretendiam deixar o Chile. Um período que empresários chilenos fazem, hoje, de tudo para reviver.
TARIFAS BAIXAS ANCORAM AS TAXAS DE INFLAÇÃO
Não dá para perder as ofertas do nosso mês de aniversário, anunciava a rede de supermercados Santa Isabel, uma das maiores do Chile, na semana passada: um pacote de 510 gramas de Kellog's por $ 1.354,00; uma autêntica sopa Maggi - daquelas de saquinhos que prometem cinco pratos da iguaria - a $ 399,00; e um pote de 170 gramas de Nescafé a $ 1.999,00.
As cifras podem parecer, hoje, distantes do brasileiro comum, que já enfrentou números semelhantes aos que os chilenos convivem há quase três décadas, em pesos, a moeda que substituiu o escudo e que flutua em relação ao dólar, diariamente.
Com um salário mínimo de $ 100.000,00, portanto, o chileno poderia comprar 50 potes de 170 gramas de Nescafé, e ainda lhe sobrariam $ 50,00, suficientes para uma bala em qualquer quiosque das amplas avenidas de Santiago ou de seus paseos - ruas de pedestres - como Estado, Huerfanos e Ahumada, as mais movimentadas da capital. Traduzindo para a cotação média do dólar, de $ 550,00 para cada US$ 1,00 - o valor oscila diariamente, mas a média tem sido mantida no mês -, o chileno que vive do salário mínimo ganha US$ 182,00.
O salário mínimo chileno é alto se comparado ao salário mínimo em vigor no Brasil, de R$ 151,00, ou US$ 81,00 pelo câmbio comercial também da semana passada, mas isso não significa que esses vizinhos da América do Sul levam mais que o dobro de vantagem assim sobre o brasileiro. Um quilo de carne, sem ser de primeira, como o coxão mole, por exemplo, estava cotado no festivo Santa Isabel a $ 1.729,00 na semana passada, ou o equivalente a US$ 3,14. Por aqui, o brasileiro consegue comprar o mesmo tipo de carne por R$ 3,75 o quilo, ou o equivalente a US$ 2,00.
Um simples cafezinho custa $ 350, mas as cafeterias, como a Haiti, têm um atrativo a mais: belas mulheres, quase modelos, em minúsculos vestidos servindo os clientes, que saem deleitados do lugar. Esses estabelecimentos são conhecidos como "café de piernas". Faz sentido. Rosário Diaz, que trabalha na rede, garante que já perdeu a conta de quantas cantadas recebe por dia, desfilando suas formas num dos vários Haitis do centro da capital.
De qualquer forma, o assalariado chileno - que também enfrenta um déficit habitacional, dada a escassez de crédito de longo prazo, depois das sacudidas da economia internacional - vive melhor que o brasileiro. Pelo menos, aparentemente, com mais dignidade, embora seja pobre a maioria dos bairros que cercam a grande Santiago.
O falante taxista Diego Nuñes, um sobrenome quase tão comum quanto o nosso Silva, que faz ponto na rua (calle) San Antonio com La Moneda, no centro da capital, diz que "as coisas já estiverem melhores no Chile", mas atribui - um discurso que muitos têm na ponta da língua - às crises internacionais os problemas enfrentados pelos chilenos, como o desemprego. "Falta plata (a expressão dinheiro é uma tradução), mas estamos no caminho certo", aposta o taxista que tem, como todo chileno, orgulho de sua moeda. O peso permanece em cartaz, sem tirar zeros nos últimos 20 anos. E oscila diariamente, mas é uma identidade que Pinochet e os governos democráticos que o sucederam fizeram questão de manter, para orgulho de gente como Diego Nuñes, que só não gosta de ser fotografado.
Os números oficiais do governo chileno dão conta de que, nos últimos 50 anos, as taxas de inflação mais altas ao ano foram as de 1973 (508,1%), 1974 (375,1%), 1975 (340,7%) e 1976 (174,3%). Já as mais baixas foram verificadas em 1960 (5,5%), 1996 (6,6%), 1997 (6%), 1998 (4,7%) e 1999 (2,3%).
Ancorando essa queda na taxa nos últimos quatro anos está a redução das tarifas de importação, uma espécie de âncora visível em qualquer comércio chileno, onde é possível encontrar, por exemplo, várias marcas inglesas de chá. Nem o Santa Isabel escapa: um saquinho com dez envelopes de Twinings sai por $ 1.500,00 ou quase US$ 3.
MERCADO CENTRAL É PONTO DE ENCONTRO
O Mercado Central de Santiago é uma pequena feira, daquelas em que se encontra de tudo um pouco: peixes, condimentos, especiarias, ervas e gente, muita gente, de todos os cantos do Chile e do mundo, que vão apreciar, nos bares do local, pratos como o salmão marinado ao molho de robustas lulas. São restaurantes barulhentos, como o Donde Augusto, alguns um pouco sujos, mas todos com a cara, os sons e o tempero desse país andino.
Um lugar que tem o rosto de Mercedes Muñhoz, uma sorridente vendedora de hortaliças para quem a vida no Chile vai bem, obrigado. "Tem uma dificuldade aqui, outra ali, mas quem não tem?", diz oferecendo imensas alcachofras, daquelas que mais parecem alfaces gigantes. Para Mercedes, falar que as coisas estão ruins ou a vida está cara, afasta a sorte.
É também no mercado que chefes de cozinhas de grandes hotéis vão às compras, atrás do peixe fresco do Pacífico, que Joaquín Nuñes y Nuñes - um sorridente velhinho de cabelos brancos - vende em sua barraca, uma entre muitas. Ele faz questão de repetir o sobrenome, deixando claro que é duplicado, para depois permitir que sua barraca, sem a sua presença, seja fotografada. Mas não se recusa a explicar que o salmão é peixe tinhoso, fácil de fisgar, mas difícil de tirar do mar. "Gostam de brincar com o pescador, corre daqui, corre dali para depois se entregar", explica.
Histórias de pescador, ou melhor, de um vendedor de peixes, distantes do habitat dos produtos que vende. O salmão, hoje, é criado em viveiros naturais e já responde por cerca de 9% das exportações chilenas. Mas Nuñes y Nuñes não está nem aí para isso, o que importa para ele são as histórias que embrulha com os peixes e que dão sabor à tradição do Mercado Central de Santiago. Ele tem receitas para cada um dos peixes que vende.
TARIFAS SÃO PEDRAS NO CAMINHO DO MERCOSUL
O presidente do Chile, Ricardo Lagos, já deu sinal verde para as negociações que poderão resultar no ingresso do país no Mercosul, como membro pleno, até o fim do ano, mas enfrentará, internamente, muita resistência à proposta, especialmente de empresários e até acadêmicos. Desde 1994, o Chile é membro associado do Mercosul, assim como a Bolívia, o que significa que participa das reuniões, usufrui de maior liberdade nas negociações com os países do bloco, mas não o integra plenamente nem adota as regras iguais para os parceiros do Mercosul, como Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.
A resistência dos chilenos ao Mercosul tem a ver com o modelo adotado pelo país, desde a década de 80, de privilegiar acordos bilaterais. O que tem garantido um mercado farto para seus produtos - essencialmente cobre, papel e celulose, vinhos, frutas e salmão - e também possibilitou aos chilenos uma maior competição de preços de importados. O que é essencial para um país que não produz quase nada de alta tecnologia e tem um parque industrial pouco diversificado.
Para se ter idéia, o comércio exterior responde por 54% do Produto Interno Bruto (PIB) chileno, enquanto no Brasil esse porcentual cai para cerca de 20%. O principal obstáculo para esse sonhado ingresso do Chile no bloco é a sua política tarifária. Hoje, as tarifas de importação estão, em média, em 9% e chegarão a 6% até 2003, enquanto as do Mercosul giram em torno de 0% a 23%, ficando na média em 14%.
Nesse caso, os chilenos terão de ceder ou pactuar com os países membros do Mercosul um novo cronograma mesmo que o presidente do Banco Central brasileiro, Armínio Fraga, considere que seria importante ao bloco acompanhar o regime tarifário chileno.
Uma das economias mais abertas da América Latina, justamente por não ter diversificação industrial. Por outro lado, como um vento a favor da proposta brasileira de integração do país andino, o governo chileno vê crescer, cada dia mais, as pressões para as negociações em bloco em substituição aos acordos bilaterais, especialmente depois que a Europa deu passos mais largos no caminho da unificação do bloco. O que não tem impedido os chilenos de buscarem novos acordos bilaterais, por exemplo, com a Coréia, em fase de adiantadas negociações. O Japão também tem sido sondado para acordo similar.
O diretor de planos econômicos do poderoso Instituto da Liberdade de Desenvolvimento (ILD), uma espécie de Fundação Getúlio Vargas (FGV) chilena, Tomás Flores, disse ao Estado que são poucas as vantagens econômicas de o Chile integrar o Mercosul como membro pleno. "São mais políticas do que econômicas as intenções, pois as tarifas do Mercosul são muito elevadas para que o Chile mantenha sua posição no mercado exterior", afirma.
Explica-se: há uma evidente fratura política no momento, Lagos, um filiado do Partido Socialista (PS) - agremiação que chegou ao poder pela última vez em 1970 com Salvador Allende -, é visto com alguma desconfiança pelo empresariado chileno, que quer manter o curso da polítca econômica do país, implantada, sobretudo, a partir da década de 80, quando Hernán Büchi (1985-89), esteve no comando da economia.
Flores atribui também parte da resistência do empresariado ao Mercosul "à instabilidade das regras do bloco porque o chileno preza, hoje, compromissos de médio e longo prazo, enquanto entre os países do Mercosul muitas coisas acabam mudando de curso no caminho", alfineta o diretor de planos econômicos do ILD, que tem como uma de suas estrelas exatamente o ex-ministro Büchi.
Na avaliação de Flores, o ideal para o Chile seria sua adesão ao Nafta, o bloco econômico que reúne Estados Unidos, México e Canadá, ou a aceleração do processo de formação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Ele até chega a fazer um prognóstico que, para as pretensões chilenas, o ideal seria que George W. Bush vencesse as eleições americanas. Faz sentido. Os democratas têm privilegiado as negociações em bloco, enquanto os republicanos privilegiam países com políticas mais favoráveis aos Estados Unidos.
Outro obstáculo no caminho é a disputa entre Chile e Argentina em torno de produtos agrícolas como o trigo. A Argentina tem ameaçado levar o Chile à Organização Mundial de Comércio, em função das barreiras que impõe a produtos agrícolas. De fato, as tarifas médias de 9% para importados chegam até a 70% quando se trata de defender a agricultura com tarifas não alfandegárias, que são aquelas subjetivas com as quais o Chile protege o setor.
Flores concorda que o parque industrial chileno é atrasado, pouco tecnológico, mas afirma que o modelo de exportar commodities, como o cobre, e importar manufaturados tem funcionado. Ele explica o desinteresse de grandes empresas, a exemplo de fabricantes de computadores, em se instalar no Chile. "O mercado chileno é pequeno, mas o importante é que o país tem conseguido crescer com o que produz, sofisticando suas operações de comércio exterior", diz e cita, ainda, o mercado financeiro que cresce por causa da estabilidade.
O embaixador brasileiro no Chile, João Augusto de Medicis, vê com mais otimismo a possibilidade de integração do Chile ao Mercosul e chega a afirmar, em documentos como o que preparou para a Escola Superior de Guerra (ESG), em setembro, que os fortes laços que unem Fernando Henrique a Lagos facilitarão o processo.
Ninguém o diz abertamente, mas há outra tese, política, de que Lagos teria interesse em apressar a adesão do Chile para, integrando um bloco, ser apoiado pelos países caso o processo em curso contra o general Augusto Pinochet resulte em sua condenação.
O que poderia abalar a recém conquistada democracia do país banhado pelo Pacífico e recortado pela Cordilheira dos Andes.
SALMÃO, VINHO E FRUTAS NAS MESAS GLOBALIZADAS
Vinhos, frutas e salmão. O chileno aprendeu a vender ao mundo esses produtos como ninguém. A produção sofisticou-se e a cidade litorânea de Puerto Montt entrou para o mapa daquelas que apresenta a mais baixa taxa de desemprego por conta do produto, criado em viveiros naturais e exportado até para o Japão. O sucesso das vendas de salmão é tanto, incluindo o Brasil, que até a revista inglesa The Economist dedicou espaço, este ano, ao crescimento da pequena cidade portuária chilena e o fluxo intenso de seu aeroporto, com aviões abarrotados de salmão saindo todos os dias.
Hoje, a grosso modo, cerca de 30% do que o Chile exporta segue para a Ásia e o Pacífico, 25% para a Europa, 20% para a América do Norte e 15% para o Mercosul. Mas não é só o salmão que, fisgado na costa chilena, tem freqüentado mesas ao redor do mundo. A fruticultura, depois de uma reforma agrária de pequenos lotes e assistência técnica aos assentados - iniciativa que o relatório do Banco Mundial (Bird) deste ano louva -, tem dado frutos exuberantes. As exportações crescem e já representou quase uma fatia de US$ 1,5 bilhão de um PIB de US$ 67,5 bilhões no ano passado.
Os vinhos chilenos, com um marketing agressivo, também conquistam apreciadores em todo o mundo. No caso do Mercosul, tanto pelo preço como pela publicidade, mais forte, por exemplo, do que a de bons vinhos de Mendoza, na Argentina, ou do Brasil, produzidos no Rio Grande do Sul.
PAÍS TEM POUPANÇA ALTA E APLICAÇÕES NO EXTERIOR
A poupança interna chilena é um dos melhores indicadores macroeconômicos do Chile e fundamental para garantir a sua estabilidade e a boa percepção de investidores e empresas de classificação de riscos, o chamado rating. Um montante que deve encerrar o ano, de acordo com os prognósticos do Banco Central do Chile, em valores equivalentes a 21,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Essa poupança interna, capitaneada sobretudo pelos fundos de pensão privados, já foi, no entanto, maior. Chegou a 23,8% do PIB em 1995, caiu para 20,3% em 1998 e 20,9% em 1999.
De acordo com economistas do Instituto da Liberdade do Desenvolvimento (ILD), uma espécie de Fundação Getúlio Vargas (FGV) chilena, o volume dos recursos segue à risca a curva do emprego e o ritmo da atividade econômica.
Apesar do desemprego aberto ter atingido 10,5% no último quadrimestre, o BC chileno mantém seu prognóstico de um crescimento da economia em rotno de 5,5% este ano. Já o Estado tem comprometido o equivalente a cerca de 25% do Orçamento público chileno com o pagamento de aposentadorias, solicitadas antes de 1981. O ano em que as novas regras foram criadas e a Associação dos Fundos de Pensão (AFP), que reúne dezenas de instituições privadas e de classe, ganhou vida.
Essas instituições, incluindo bancos, oferecem o seguro previdenciário a seus associados, variável de acordo com o valor pago, o tempo desejado de resgate e, sobretudo, o resultado das aplicações desses fundos. É o que os diferencia e também o que permitiu ao mercado financeiro chileno uma maior sofisticação de suas operações, voltadas para as aplicações e o crédito.
O compromisso do Estado, que ficou assegurado no processo de reforma da Previdência, é o de garantir o pagamento de um salário mínimo mesmo para aqueles cujo valor depositado, ao longo do período padrão, não façam juz ao recebimento do mínimo.
O grande teste dos fundos privados de pensão, ou seja, os primeiros desembolsos - até agora só estão arrecadando e aplicando os recursos - está previstos apenas para 2011, quando as primeiras levas daqueles que fizeram planos de 30 anos, terão acesso aos rendimentos.
Na realidade tratam-se de produtos financeiros, que o brasileiro já conhece, mas cujo volume de depósitos aqui nessas aplicações ainda é muito baixo.
Economistas chilenos acreditam, porém, que o Estado não conseguirá, como desejaria, reduzir a participação de 25% do Orçamento no pagamento de pensões, uma vez que continuará a arcar com a aposentadoria padrão. Isso porque o baixo valor investido por trabalhadores dificilmente assegurariam rendimento igual mínimo, exceto se complementado pelo governo conforme prevê a legislação. O setor de construção civil, por exemplo, passa por forte retração este ano, apesar da oferta de crédito. Afinal, há o temor de desemprego, que inibe o consumidor e torna mais rigorosas as exigências dos bancos.
Com uma carteira apenas um pouco maior que a da Previ - o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, que administra recursos da ordem de R$ 32 bilhões - a AFP também participou das privatizações brasileiras, comprando ações de empresas de telefonia e energia elétrica. Um sinal das poucas oportunidades que a economia chilena oferece a investidores.
PALÁCIO DE LA MONEDA ESTÁ DE PORTAS ABERTAS
A longa ditadura militar do general Augusto Pinochet (1973/1989), se trouxe benefícios ao país no plano econômico, no terreno político ainda deixou muitas fissuras e feridas abertas. A prisão de Pinochet em Londres e seu regresso ao País; a cassação de sua imunidade parlamentar, em 8 de agosto, pela Corte Suprema do Chile; e as investigações sobre a chamada Caravana da Morte, quando 18 pessoas sumiram do mapa; ainda prometem um desenrolar tumultuado, que divide os chilenos. O mesmo não ocorre no terreno econômico, onde os governos democráticos eleitos desde 1989, vem até aperfeiçoando o modelo adotado.
Para um país onde as operações de comércio exterior - importações e exportações - representam, hoje, 54,3% do Produto Interno Bruto (PIB) é natural que as regras se mantenham estáveis, apesar de alguns solavancos como a crise asiática. Com um PIB previsto em US$ 71 bilhões para o ano, esse pequeno país de 15,4 milhões de habitantes, tem conseguido exportar o suficiente para importar aquilo que não produz, como carros e computadores.
No plano político, o Chile também vive uma situação de abertura e liberdade, no aguardo da decisão sobre o destino de Pinochet. Hoje, qualquer cidadão pode passar por dentro do pátio do Palácio de La Moneda. Gente como Rita de Cássia Navarro, uma senhora de 56 anos, que perdeu um sobrinho nos anos de chumbo do governo Pinochet, que se orgulha de passar todos os domingos por dentro do pátio, diante do olhar atento dos Carabineros que são impedidos de barrarem a entrada nesse território do poder, que abrigou a repressão. Mesmo assim, a condenação possível de Pinochet assusta, até mesmo gente como Rita de Cássia, que carrega o nome da advogada das causas impossíveis.
Fonte:
Estado de São Paulo, 22 a 25/10/2000