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Matérias e artigos na imprensa nacional


11/12/2000 - Jornal do Brasil

Editorial

Muy Amigo

Durante três anos, Brasil e Argentina cortejaram o Chile como sócio especial do Mercosul, com o objetivo de atrair o país de economia mais aberta e menor grau de proteção tarifária do Cone Sul para o bloco econômico integrado ainda por Uruguai e Paraguai. A entrada do Chile fortaleceria o Mercosul e serviria de chamariz para o ingresso da Bolívia (também sócio especial), da Venezuela e dos países que integram o Pacto Andino (Colômbia, Peru e Equador).

A estratégia destinava-se a afinidade política, econômica, comercial e cultural entre os países da América do Sul. A partir da aliança aduaneira, um elo uniria os interesses comuns da comunidade de 280 milhões de habitantes nas discussões com os Estados Unidos sobre a criação da Área de Livre Comércio das Américas, em 2005.

Sem um forte bloco capaz de propiciar aumento de escala às empresas e economias da região, com redução gradual das tarifas de importação, a implantação da Alca - com a eliminação de barreiras tarifárias entre o bloco do Nafta e os países do Caribe e América Central e do Sul - seria altamente desfavorável ao Brasil (e aos países da região).

Enquanto as economias regionais não puderem enfrentar empresas americanas e canadenses quando da unificação dos mercados daqui a cinco anos, qualquer passo capaz de enfraquecer a capacidade de barganha do bloco ecomicamente mais fraco só beneficiará aos mais fortes. No caso, os Estados Unidos e o Canadá.

Nesse sentido, a decisão do governo chileno foi um duríssimo golpe, quase uma traição aos interesses dos países sul-americanos, cuja liderança coube naturalmente ao Brasil, por maior participação no Mercosul do que os três outros sócios somados. O Chile flertou com os parceiros do Mercosul, com voz ativa nos últimos dois anos, mas cedeu aos acenos do mercado da maior economia do mundo.O presidente Ricardo Lagos disse ao presidente Fernando Henrique que a adesão ao Nafta em nada diminuiu o interesse do Chile no Mercosul. É difícil acreditar, dado que as condições econômicas empurram o Chile para o Nafta.

As tarifas médias de importação do Chile estão em 9%, contra a média de 17% para a Tarifa Externa Comum (TEC) do Mercosul. Para comerciar sem prejuízos no Mercosul, o Chile esperava a TEC cair para 14% em janeiro de 2001, como foi acertado há dois anos. Por problemas na balança comercial, Brasil e Argentina combinaram adiar a redução por mais seis meses. Ou, no máximo, reduzir a queda à metade. A decisão final, que enfrenta resistência do Paraguai, seria tomada na reunião de presidentes do bloco que começa no dia 14, em Florianópolis).

Com as presenças dos presidentes do Chile e da Bolívia, a cúpula presidencial de Florianópolis pode ser decisiva para o Mercosul. O bloco precisa ganhar novos sócios, força política e economia de escala para, como união aduaneira, servir de anteparo aos planos expansionistas do comércio dos Estados Unidos. É importante esclarecer os pontos obscuros e dúvidas decorrentes da deserção do Chile. Cresce entre os exportadores brasileiros a desconfiança de que, diante das dificuldades financeiras para obter dos Estados Unidos o apoio ao fechamento do acordo com o Fundo Monetário Internacional, a Argentina venha a fazer concessões capazes de levá-la a fazer a trilha do Chile. Sseria lastimável. Se cada país pensar mais em si e menos na aliança aduaneira regional, o Brasil corre o risco de ficar isolado na defesa de um bloco econômico (o Mercosul) já sem perspectiva de vida longa.